O urubu à primeira vista pode parecer um animal repugnante, que se alimenta de carniça em lugares malcheirosos. Às outras vistas também.
Acontece que essa besta de satanás assemelha-se mais ao homo sapiens sapiens do que um macaco poderia, comendo frutinhas e trepando em meio às árvores. O urubu observa o putrefato mundo sob ele, enxerga toda a sujeira, e ainda assim é atraído. Não pode viver sem o lixão como o Zé não pode viver sem seu trabalho de tele-márquetim na cidade. Precisa alimentar-se dos dejetos dos sapiens já que não sobram mais belos veados em carniça nos campos. João precisa comer do prato podre que lhe oferece o Trabalho, a Competitividade, a Produção e outros senhores desta porcaria de planeta doente, ainda que veja tudo como o belo troço de merda que é.
A boa notícia é essa, ainda podemos ver, todo sapiens que pode pensar consegue ver a poça de lama que mete a cara e o que há fora dela. O urubu vê o lixão e não gosta, imagina pumas mortos, urubuas no cio e galhos robustos e confortáveis. A podridão instalou-se, isso não se pode negar, e se podemos ver, porque não falar dela? Os ratos imaginam todo o monte de plástico, bosta e canos de metano como padrão natural, os urubus sabem que não.

